Ancestralidade

Ancestral etimologicamente provém do francês antigo da  » ancêtre », que significa, antigo ser. Por conseguinte essa palavra é indo-européia, portanto, tem uma conotação europeia. Para os europeus, um ancestral é quem já viveu numa época anterior aos seus avôs, sendo assim alguém que viveu, morreu e deixou descendência.

Devido ao fato que, o mundo seja dominado pelos pensamentos e lógicas européias, os africanos e descendentes, introduziram essa palavra e o significado, nos seus vocabulários.

Percebemos então que a noção de ancestral se limita somente aos laços biológicos, mas, para o africano, não se limita somente a isso, por isso, que cumprimentamos nas ruas pessoas mais velhas e podemos até chamá-las, mesmo não sendo familiares, de pai, mãe, avó .. E que mesmo após quatro gerações ou mais, nossos primos são chamados de irmãos. Vale lembrar que em muitas línguas africanas, a palavra primo sequer existe.

Quando falamos de ancestral logo não estamos falando de uma pessoa que faleceu. Quando alguém falece, apenas o corpo falece, as energias espirituais do falecido, continuam, e nunca desaparecem, como mostrou o escritor Birago Diop no seu poema  » les morts ne sont pas morts » que significa em português: os mortos não morreram/ não estão mortos. Birago descreve que os mortos não se encontram de baixo da terra, mas estão presentes no ar que respiramos, nas folhas que se agitam ao vento, nas águas, são energias da natureza. Contudo, podemos perceber que essas energias, representam o que chamamos de Vodu, orixá etc…

O ancestral portanto não é um falecido, mas um vivo, um ser, que atingiu a perfeição divina.

Na perspectiva africana, o ciclo de vida acontece em 4 fases: nascimento, morte, ressurreição e reencarnação. Assim, muitas crianças que nascem são identificados como reencarnação de um ancestral, pelas características físicas, comportamentais, e outros, como por exemplo, após um resultado do jogo de búzios.

O criador, segundo a visão africana, também passou pelas quatro fases. Ele não impõe aos humanos o que ele não viveu. Abriu os caminhos para os seres humanos, como exemplo, temos Osiris, deus do Egito Antigo, um ser humano que nasceu, viveu, sofreu e depois faleceu, atingindo pós morte a sua perfeição divina, tornando-se um deus.
Osiris; Imagem: Sebastian Morel


O criador se manifesta portanto de diversas formas, possuindo distintas maneiras de agir, e em distintos aspectos. As religiões africanas não são puramente politeístas, todavia são monoteístas polimórficas. As divindades se manifestam de diferentes formas como por exemplo, Osíris, Thot, Isís, no Egito; Legba, Zangbeto no Vodu ( Togo, Benim); Mamlambo, Inkosazana nas religiões do povo Zulu. Essas divindades também são ancestrais porque se juntam ao o criador que é o primeiro ancestral.
Legba; imagem: voyance





Cheick Anta Diop no seu livro  » civilisation ou Barbarie », explica que: o falecido, justificado, torna-se Osíris, e, vive agora entre os deuses pela eternidade ». Ele mostra que somente o falecido que passou a prova do julgamento divino se torna o imortal Osíris, que é uma manifestação do Criador, o Amon- Ra. Em outras palavras, o defunto, que se tornou ancestral, se torna uma divindade, se junta a luz divina, assim o ancestral se torna um santo.

Amon Rá; imagem: Carolina Bright


Essa luz e auréola (sol , Amon- Rá) que representam a santidade, inspiraram outras religiões como o catolicismo que representa o resplendor de seus santos com uma auréola na cabeça. Nós [ africanos] invocamos nossos ancestrais, os católicos invocam os seus santos, e os judeus invocam Abrão, Moisés, Isaac…quem são os ancestrais desses últimos.

Quando o Africano fala de ancestral, ele se refere:

– à sua ligação entre o mundo espiritual e o ancestral dos ancestrais ( o criador);

– da sua própria essência de encarnação física na terra ( lembrando que somos todos reencarnações de ancestrais);

– do caminho que leva até a santidade, a perfeição divina e a eternidade.

Fontes:

– Lisapo Ya

– Cheick Anta Diop

– Fórmulas eficazes para a fusão na luz divina, “ Livro dos mortos” do Antigo Egito.

– Akouavi Abalo, minha avó

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