Apropriação cultural-visão dos africanos do continente e da diáspora ( Brasil e Haiti)

O Brasil é o segundo país no mundo com o maior número de pretxs, perdendo somente pra Nigéria. Porém não foram pelas suas próprias vontades que os antepassados desses pretxs vieram para o Brasil – eles foram trazidos a força. Durante mais de 300 anos de escravidão, vieram vários africanos de diversas etnias para o Brasil. Esses passaram por várias condições desumanas, humilhantes e de má higiene até chegar no Brasil. Perderam os seus nomes, foram batizados na religião católica e lhe foram dados nomes como João, Joaquim, Maria assim que chegaram aqui. As suas culturas, os seus conhecimentos foram perdidos. 

Os portugueses misturavam as diversas etnias africanas para que eles não pudessem se entender e organizar revoltas. Isso levou a uma mistura das culturas oriundas do continente africano, povos do Golfo da Guiné se misturaram com os povos do Congo, Angola etc… Assim reconhecemos um pouco de cada etnia nessa mistura da cultura Afro-Brasileira.

 

Foi difícil resistir e manter a cultura africana. Do Candoblé ao Jongo e ao Maracatu, do axé à acarajé, foram todos formas de luta, além de ser elementos da cultura afro-brasileira. A capoeira por exemplo é uma luta disfarçada em dança, ela já foi até proibida. Os quilombos constituíram importantes centros de resistência. As bonecas Abayomi tiveram uma grande importância. Para acalentar seus filhos durante a viagem da África para cá, as mães rasgavam bordas das suas saias e tecidos para confeccionar as bonecas. Elas eram todas pretas e não tinham demarcação de olho, boca e nem nariz.

 Os negros brasileiros continuaram humilhados e segregados mesmo após o fim da escravidão, eram e ainda hoje são vistos como feios por causa da cor de pele, do cabelo crespo , do nariz, dos lábios. Muita coisa era considerada pejorativa, como “coisa de preto”. Dread feito por um negro é visto como sujo. Os mais de 300 anos de escravidão conseguiram alienar o povo afro- descendente aqui no Brasil, ao ponto deles se acharem feios, pois nunca tiveram nenhuma referência preta, assim foram obrigados a enxergar o branco como perfeito, e tudo o que o branco fazia como sensacional.


  Bonecas feitas pela Kizzy Cesário

Do outro lado do oceano, no continente africano, a colonização começou no século 19 na maioria dos países africanos e acabou nos anos 1950-1960. Foram mais ou menos 80 anos de colonização. Obviamente os danos foram mínimos. Não conseguiram tirar nossa cultura, nossas tradições, nossas línguas, nossos nomes, contudo mexeram nas formas de organização das sociedades. Fomos obrigados a aprender as línguas dos europeus. Lembro-me que na escola éramos punidos quando falávamos as línguas locais. A colonização inglesa ainda colocava administradores nativos das colônias  nas colônias, mas as colônias francesas eram administradas por um representante francês. Hoje em dia temos a repercussão no desenvolvimento dos países de língua francesa e inglesa. Os países de língua inglesa são mais desenvolvidos.

 

O Haiti teve uma história parecida com a do Brasil durante a escravidão, mas graças a revolução feita pelo Toussaint Louverture, as coisas mudaram bastante.

 

Ao longo dos anos, com a globalização, os povos começaram a interagir mais. Assim, um povo na Mongólia pode usar roupas típicas do povo da Tanzânia, corais na China podem cantar em Mina (uma das língua do Togo). Contudo, podemos afirmar que os povos entraram num processo de apropriação cultural um do outro.

 

Eu decidi entrevistar algumas pessoas negras de diversos horizontes, para saber o que acham sobre apropriação da cultura negra:

 Alabê Nunjara, afro-brasileiro, Internacionalista: « (…). No caso brasileiro, a apropriação cultural veio de forma estratégica, às vezes de forma política, para que diminuíse a influência cultural do negro na sociedade. Quer dizer que a cultura de massa é fundamentalmente negra,(….) . Apropriação cultural, para mim, é você tirar o protagonismo dos negros de demonstrarem a sua cultura e transformar tudo isso numa mercadoria, em algo vendável. Só comprar um turbante do candomblé, abrir uma academia de capoeira ou frequentar uma escola de samba não te torna negro. Apropriação cultural é isso, para mim. Eu sou contra« 

Honorina de Lúcio, Angolana, Enfermeira e residente no Instituto de Cardiologia: « (…) eu não diria que sou contra nem a favor. Principalmente quando algumas pessoas usam símbolos ou coisas de determinada cultura de forma inapropriada ferindo assim a cultura de outrem. Apropriação Cultural é um conceito da antropologia e se refere ao momento em que alguns elementos específicos de uma determinada cultura são adotados por pessoas ou um grupo cultural diferente (…) certos ítens das culturas africanas são apropriadas anarquicamentes.(…) As pessoas começam a dar valor a roupa africana por exemplo quando um branco usa (…) Em angola cada roupa tem um significado(…) »

 

Kizzy Cesário, afro-brasileira, professora de artes e estudante de comunicação social na UFRJ:  » (…) Não sou contra o fato duma branca usar turbante, mas ela tem que saber que por trás disso tem toda uma história e ela tem que saber  também o que isso significa pra nós (…) »

 

Will P. Theard, Haitiano, estudante de engenharia civil na UFRJ: « Sou contra porquê quando o negro usa roupas típicas, acham feio, mas é bonito quando o branco usa (…) »

 

Pierre Agbé, Togolês, Graduado em Teologia e Filosofia e mestrando de filosofia pela PUC  SP: «   sou a favor. alías nem preciso estar a favor ou não. A propria dinamica da sociedade é assim. A convivenvia com o diferente nos muda e nos transforma. (…) O trabalho a fazer com aqueles que estão contra é um trabalho de reconciliação com a historia »


Viviane Moraes, afro-brasileira, professora na faculdade de letras da UFRJ  » A branquitude se apropria de nossas coisas desde o séc 2 ac. (…)Qdo leio Fanon ele diz q a branquitude vai nos ludibriar. Qdo tomarmos consciência da situação, ela vai fazer c q nos importamos c coisas menores(…). Entao, sinteticamente, eu sou contra (…) Mas acho q esse não é o momento da gente discutir/tretar/perder energia c isso, pq temos um genocídio em curso »

Elisé Kalonji, congolês, formando em administração pela UFRRJ  » vejo isso como uma forma de valorização da cultura pela pessoa de outra cultura, é o caso por exemplo das modas italiana, Francesa, Américana. (………) é na harmonia que se constrói um mundo melhor »

Image: Noel Tadegnon

Diante desses depoimentos, e também das conversar que eu tive com outros brasileiros negros empoderados, percebi que muitos são contra o fato dos brancos se apropriarem da cultura afro, digo usar turbante, dread, etc … E os africanos que nasceram no continente, acham isso bonito e se sentem valorizados.

 

Diante disso, eu fiz uma análise: Os afro-Brasileiros estão ainda em uma fase de construção de identidade, porque a cultura africana aqui sofreu muito, ela sempre foi colocada para baixo. Agora que está nascendo um movimento de resgate da identidade negra, é normal que eles tenham ciúmes. É normal que eles queiram proteger o lado bom de ser negro, o que sempre foi escondido deles. Por outro lado, os africanos que nasceram no continente sempre souberam a beleza e a riqueza das culturas africanas, pois a colonização não conseguiu desestruturar completamente nossas sociedades, então, estão prontos a compartilhar com o resto do mundo a sua cultura. Nada melhor para explicar isso do que uma frase que a minha avó não cansa de repetir: « quem tem divide, quem está conquistando, protege. »

 

Eu me senti então obrigado a questionar: A globalização pode ser também aplicada a uma cultura que sempre foi rebaixada? E Que está em um processo de construção?

 

Durante muitos e muitos anos, usar turbante, ter cabelo afro, usar tranças nagô, eram consideradas “ coisa de negro”, coisas feias. Lembro que em 2012 quando eu decidi trazer a marca da minha mãe pra cá, me falaram que ninguém compraria aqui, mas, pelo contrário, deu certo.

 

O samba, o pagode, e o funk são consideradas músicas de pretx, mas quando toca na balada, todo mundo dança, esquecendo o preconceito que têm. Isso que é feio: Não lembrar da importância cultural desses ritmos musicais.

 

Os movimentos lacração e tombamento tiveram uma grande importância na identidade cultural negra e da beleza negra. Assim vemos xs pretxs na rua com cabelo black, roupas com estampas africanas, tranças nagôs e turbantes. Mas ainda percebemos que quando é o preto que usa dread, turbante, etc… , ele é mal visto, ao contrário do branco que é considerado o « descolado », e estiloso. 

 

O Afro-brasileiro usando roupas africanas não está se apropriando da cultura africana?

 

NÃO, porque o africano não é só aquele que nasce na África, mas aquele que mesmo nascendo em outro continente tem origem africana. Não importa se ela sabe ou não especificamente da sua origem. Esse sentimento de pertencimento é tão grande que vemos alguns jogadores negros do time do futebol francês que não cantam o hino francês. No entanto, é importante saber também as circunstâncias em que usar os tipos de roupas africanas, saber que cada forma que amarra o turbante tem um significado, entender o significado dos nomes africanos dados aos seus filhos, saber que, por exemplo, não se pode dar nome de divinidade negra ao seu filho ( por motivo de respeito ), logo só seguir as religiões de matriz africana quando estiver realmente pronto, não seguir somente porque é preto. As religiões de matriz africanas são muito exigentes, portanto as recomendações dadas não podem se fazer pela metade senão se voltam contra você.

Não me sinto na posição de concluir o texto pois eu acho que é um debate a ser  feito e a ser discutido por todos. Porém é uma hipótese de resposta aos que acham que o afro-brasileiro não tem direito de usar turbante, tranças, etc.. 
Referências:

1-história do Negro brasileiro de cLÓvis Moura

2-Rebeliões na Senzala de Clóvis Moura

3-Desobediência epistêmica de Walter Mignolo

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